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sábado, 4 de outubro de 2014

Porque viver é uma Vitória - Carmem Piza


Vitória

Eu sou a tia Carmem, o meu nome é Carmelina, mas algumas pessoas me chamam de tia Carmem. Com certeza daqui uns dias ou meses, você também vai estar me chamando assim – tia Carmem!
Você é tão pequena. Vitória, o mundo é cheio de letras, palavras, frases e livros. Sonhos, fantasias e histórias. Vou contar um segredo que guardo desde pequena. 
Resolvi contar a você. À Mariana, um bebê que chora, ri e mama, faz xixi e faz cocô na fralda. A Camila é a irmã da Mariana. Camila é menina moça. Linda! Cabelo liso escorrido, olhos pretos, usa sutiã, pensa em namorar e adora a Mariana. A Thaís, menina linda de olhos azuis que adora princesas.
Vamos ao segredo:
Quando eu era pequena, maior do que você e também maior do que a Mariana e menor que a Thaís e menor que a Camila, eu achava que era uma princesa. Olhava-me no espelho e conseguia me ver de coroa dourada, manto vermelho, sapatos de salto, vestido longo andando em um castelo todo dourado.
Sabe Vitória a gente cresce. Já tive a idade da Camila, fui menina moça, me sentia feia, bruxa, horrível. Cabelos escorridos, magra, cara com espinhas, são pontinhas amarelas que saem no rosto para incomodar a vida da gente. Nada estava bom. Colocava uma roupa e dizia:
- Credo! Que coisa horrível! Não vou assim à festa! Foi aí que começou a síndrome do patinho feio. Mas eu ia à festa.
Aos 20 nos, eu olhava no espelho e não me achava bonita. Mas me vestia e saía passear com meus amigos.
Já tive 30 anos, não me preocupava se era princesa, Cinderela ou menina moça. Bonita ou feia. Sabia viver e adorava passear e viajar.
Aos 40 anos coloquei aparelho nos dentes e voltei a estudar. Sempre pensava: “sou uma pessoa alegre e tenho muitos amigos”.
Aos 50 anos olhei para mim e vi a Mulher. Fiz o que bem entendi, amei  muito, celebrei a vida todos os dias. Um dia acordei e lembrei-me que não sabia andar de bicicleta. Fui até a loja e comprei uma bicicleta de três rodas acho que é uma tricicleta ou triciclo? Não sei!
Na minha linha de pensamento descobri que quando eu completar 60 anos a Mariana terá quatro anos e será a princesa. Você, Vitória, terá seis anos e será a Cinderela. A Thaís com nove anos com certeza vai dizer: sou princesa ou menina-moça? A Camila com 14 anos vai perguntar: o meu cabelo fica bom preso ou solto? Deixo crescer ou corto? Uso calça, camiseta e tênis ou coloco vestido com sandálias?
O meu segredo era este: já fui princesa, Cinderela, menina moça, moça, mulher e hoje sou a mulher na com 62 anos.
Caminho para os 70 anos, mas gostaria de levar comigo a sabedoria de tudo que aprendi. E aproveitar a vida.
Tenho uma notícia para vocês, a tia Carmem chegará aos 80 anos. Não vou me preocupar com mais nada, só em divertir com a vida.
Chegarei aos 90 anos.
Porque viver é uma Vitória.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

- Sementes -


SEMENTES
SEM SEMENTES
ENTES SEMENTES
ES SEMENTES
MENTES SEMENTES
SEMEN SEMENTES
TES SEMENTES
SE
MEN
TES
SEMENTES 
SEMENTES 
SEMENTES 
SEMENTES
SEM
MENTES

SOU.

SEM SEMENTES
ENTES SEMENTES
ES SEMENTES
MENTES SEMENTES
SEMEN SEMENTES
TES SEMENTES
SE
MEN
TES
SEMENTES 
SEMENTES 
SEMENTES 
SEMENTES
SEM
MENTES
SOU.




- Do meu eu -


Esculpindo a vivência
Do meu eu 
Desnudamento da minha realidade 
Algo me escapa
E me fascina

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

- Peregrino dos Sonhos -


Quando mexemos nos nossos lixos descobrimos poderes e energias 
Desdobramos níveis nas mulheres em nós o feminino a guerreira a sábia 

Ajoelhamos e reverenciamos a terra a raiz o tronco os galhos as folhas 

Seguramos a espada a rosa desperta nas mãos a luz inconsciente 
Reverberamos para o universo na iniciação do amor do afeto da ternura 
Na temperança dos rostos descobrimos a persona 
E vencemos com a ajuda dos nossos sonhos.

- Travessia -


O cantar eu busco
Tenho tentado,
Apesar dos esmagamentos vividos.
O cantar eu não encontro
Tento inventar e reinventar 
Nas minhas experiências
Do falar e descobrir 
Do interpretar e desvendar.
Quero nessa travessia
Fecundar o meu cantar.
Nas dimensões 
Da minha realidade 
Que construo no meu tecer
Vou travessiando.

- Ser do encontro -


O homem, a mulher,
O animus, a anima.
Despertar:
O mensageiro interior,
O giro do cata-vento.
Ventar:
Nas asas dos pássaros,
Nas páginas dos livros.
Ligar e religar:
No mosaico que viaja, 
Do livro ao livro,
Nos retalhos da colcha,
No sabor da comida.
Caminhar:
No fogo,
Em busca do céu,
Na árvore que expande.
Descobrir:
A cobra no bote das minhas costas,
Nas palavras que busco e rebusco.

sábado, 20 de setembro de 2014

- Sinto que preciso amar... -


- Mão -



Andar e girar.
São círculos, riscos e rabiscos,
São braços, pernas e mãos. 
Corpos que se enroscam e se arrastam pelo chão
Num só movimento.
Na sensação encontro felinos e aves de rapina.
Descoberta da água e do fogo, da luz e da sombra.
O ar, a terra. 
Tramas e sonhos do encanto de descobrir o corpo.

- Grito -



Eu nessa imagem.

Medo do quê?
Medo de quem?
Medo do medo que vem e fica.

Além dali, o azul do céu.
As grades do medo no entorno do meu corpo.

Sonho
Com a tela de vidro quebrada

Lembro
Da cobra de vidro comprada como pingente.
Antes de colocá-la no pescoço
Ela cai
E parte ao meio.

Além dali, o anil do céu.
As grades do medo no entorno do meu corpo.

Segui em busca do universo.
E na liberdade de escolha caminhei ao meu tempo.

Grito por novos caminhos.
Por amores desejados
E por conceber esperanças.

- Máscaras -


Pelo grito sou levada
Não sei pra onde.
Meus pés perderam o chão. 
Todos olharam e nada fizeram.
Busco a mão que não vem 
Colho a planta já morta em vão.
Grito, grito, grito!
Vejo a mulher escondida em mim
Os cabelos ao vento, o sol no rosto, 
O tempo no olhar de las abuelitas.
A criança aparece pela janela fechada
E os meus olhos estão nas grades em vão.
Quero arrebentá-las!
Quero voar!
Quero ir.
Quero fazer. 
Quero 
Amar
Viver
Sentir
Colocar novamente os meus pés no chão 
De terra batida do meu quintal.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

- A Olaria das Palavras -



Surgem cenas e imagens
Nascer 
O barro.
Crescer 
O vaso.
Vida em busca.
Envelhecer
Buscar a vida perdida no tempo.
Sentir o peso dos dias
É luta
É batalha
É espera
Buscar o frescor e a espontaneidade
Na estrada carregada de pedras.
Saltar
Chutar
Pular
Seja lá o que tenha acontecido
É ouro, prata, bronze
É âmbar, marfim
A olaria das etapas vividas.



Publicado no Caderno do Sarau Literário Piracicabano
de 19 de Agosto - Parte 2

- O velho Mestre -


"O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.- " Qual é o gosto ? " perguntou o Mestre.- " Ruim " disse o aprendiz. O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago, então o velho disse :- " Beba um pouco dessa água ". Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o Mestre perguntou :- " Qual é o gosto ? "- " Bom ! " disse o rapaz.- Você sente gosto do " sal " perguntou o Mestre ?- " Não " disse o jovem. O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou sua mão e disse: - A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende do lugar onde a colocamos. Então quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido das coisas. Deixe de ser um copo. Torne-se um lago..."

(foto de Mirella Santana)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

- "Oi, pessoal tudo bem?" -


Dia desses uma “Maga” me presenteou com um curso de Contadora de historias, talvez porque ela tenha visto em mim, algum potencial que eu não via. Pensando na minha missão com as crianças, simplesmente, aceitei.

Mas, quando cai na real, as borboletas começaram a se debater dentro de mim! Como, eu, que só conseguia gritar meus versos em folhas de papel iria transpô-los para minha boca? Como, eu, que só usava as mãos para escrever iria desprender meus braços e minhas pernas para dançar cantigas de roda?

Eu já sabia que nesse curso iria ter uma “Anja” linda que brilhava! Essa Anja rodopiava na minha frente e com toda a sua luz me chamava para voar, me dizia:

- Vamos, grita! Põe pra fora os versos e as prosas que estão ai dentro dessa alma, solta as pernas, levanta os braços e roda, roda, roda!...

Deus colocou-me, também, junto a pessoas cheias de compreensão e alegria.

Isso tudo foi acalmando as borboletas que se debatiam dentro de mim e eu fui soltando a voz e rodando, meio que devagar, mas rodando!...

E hoje, quando acordei, vi que o dia estava diferente e que eu estava diferente...

É que, hoje, eu acordei como “Contadora de histórias”!!!


Marlene Sabatini - Escritora 
Grupo - Alegria de Infância – Contadoras de historias

quinta-feira, 10 de julho de 2014

- Baú de Histórias ( 5 ) -

O CONTAR E RECONTAR HISTÓRIAS


Uma casa com o canto da bruxa. Uma escada que leva aos sonhos, os mensageiros do vento balançam embalando os sons das histórias. No chão a colcha de retalhos transformando a vida por instantes em lembranças da infância. Em cada pedaço de pano costurado uma história para ser contada. No contar e recontar a história o cenário da narrativa é de suma importância para que o contador de histórias tenha liberdade de expressão. É no cenário, que estão os personagens, o tema, o enredo com início, meio e fim. Essa junção nos faz criar e recriar, inventar e reinventar novas histórias.



Temos o esboço das histórias. Ouvimos e contamos nossas histórias todos os dias. A criação do esboço da história é através também da leitura. Por isso, devemos ler muitas histórias para as nossas crianças. Dar o livro para ela contar, mesmo que ela seja pequena e ainda não aprendeu a ler. Ela pega o livro vai nomeando as imagens e fala como estivesse contando. E nesse contar e recontar a criança desenvolve a estrutura da linguagem interior. Essa linguagem tão sofisticada e diferente da nossa linguagem do dia a dia. 


Lá fora os carros correm, as motos roncam, as pessoas falam e andam em busca de caminhos. A guerra começa em um país distante. Na casa encantada, o cenário está montado para tudo começar, os narradores são provocados pela imagem cênica que os leva à descontração, ao movimento e à catarse de ação. O aquecimento é feito e a dramatização começa.

Cada um resgata suas memórias. Eles brincam com as mãos, seguem os gestos com o olhar acompanhando o ritmo da música calma e suave. Aquecidos, entram no espaço cênico para representarem as memórias da infância. Lembranças das cantigas de roda, cheiros guardados do pão da avó, lugares e momentos do passado. Eles não são atores de teatro. São contadores de histórias livres na expressão e na espontaneidade. Autoridades no momento da apresentação da própria vida interior.

De conto em conto fui formando as histórias da minha vida. 
Linhas traçadas e teias formadas.
Rebuscadas nas lembranças da infância.
O olhar é essencial. Através dos olhos conversamos com a criança que nos ouve.
As mãos acompanham a fala e completam a narrativa. 
Se cada conto aumenta um ponto: trace a sua teia. Cuide de você, reencante com a sua profissão, redescubra o seu aluno. Acredite nele e na sua capacidade de ensinar a aprender.


- Baú de Histórias ( 4 ) -

HISTÓRIAS SÃO CONVERSAS SÁBIAS


A arte de contar histórias atualmente vem ao encontro às mudanças, redescobertas e buscas de um novo milênio. Quando algumas pessoas acham que a história é coisa de gente antiga, descobrimos a beleza, a magia e o encantamento desta arte. 



Contar histórias em hospitais faz bem para a alma de quem conta, é curativo para o paciente que está ouvindo. Ele descobre que não está só, viajando pelo mundo da fantasia. A dor se abranda, o sofrimento voa, a ferida viaja e o coração se abre para mais um momento de alegria.


A experiência mostra a necessidade de levar o entusiasmo e a coragem a estas pessoas que estão se sentindo perdidas enfrentando o desconhecido num lugar que não é nada agradável, o leito de um hospital. 

O trabalho voluntário leva um pouco de companheirismo e amor a quem está cuidando dos doentes. Envolvendo enfermeiros e acompanhantes nos momentos mágicos da história. Eles riem, participam das brincadeiras e quando tudo termina estão calmos, tranquilos e dizem que a hora passou rápida. Perguntam: “Quando vocês voltam?”.

Os doentes precisam dos cuidados especializados, mas necessitam também dá compaixão e do carinho para saírem de um momento tão difícil que é a doença e a dor, esta dor que não é apenas física, mas uma dor que vem de perdas, de desamores e desencantos. Eles precisam buscar um sentido para a vida e para isso necessitam de força e encantamento. É em uma pequena história que descobrem a alegria e a gratidão. 

As voluntárias do grupo: “Na Cia da Tia Carmelina”, visitam a Pediatria Menino Jesus da Santa Casa de Piracicaba todas as segundas-feiras cantam, brincam e contam histórias. Os pacientes gostam, mas as mulheres voluntárias sentem que a semana fica mais leve, elas descobrem o belo do trabalho e dizem que estão mais bonitas e fortes para enfrentarem a vida. 

Sabemos que as histórias são conversas sábias ao pé do leito. Para quem ouve e para quem conta.

As histórias guardadas na memória, não é uma invenção criadora dos contadores de histórias.
É um aprendizado que passou de povos para povos.
As histórias estão em nosso imaginário. 
Ela não vai se perder.
Nem vamos permitir que ela se perca.



quarta-feira, 9 de julho de 2014

- Baú de Histórias ( 3 ) -

AS HISTÓRIAS ENSINAM


Quando era menina, ficava deitada no chão do quintal olhando as nuvens e sonhando. Lembro-me que pensava o que faria quando fosse grande. Construía desenhos nos blocos brancos das nuvens e montava pequenas histórias.



O contador de histórias existe dentro de cada um de nós. Precisamos despertá-lo. O professor tem uma história, uma tradição, ele constrói o seu saber ao longo do processo de vida. Por isso, há necessidade de formar redes de autotransformações participativas, trocas de experiências vivificadas em sua sala de aula. A união, o diálogo, o falar e o escutar são fundamentais e emergentes na prática profissional para a produção de saberes e valores no exercício da autonomia do professor-contador de histórias.


Neste momento de reflexão sobre o docente-contador de histórias, não estamos preocupados com o sistema pedagógico, mas sim, em fazermos uma articulação, uma rediscussão de visões educacionais que permaneceram e enrijeceram o corpo, a mente e os sonhos de alguns profissionais. Para tanto há que “relaxar” o corpo, abrir a mente e dar asas aos sonhos buscando o encantamento das histórias e o desprendimento no ato de narrar.

Visitando o universo dos deuses descobrimos que relatos foram transmitidos de geração para geração se estabelecendo e se conservando.

Jean-Pierre Vernant, no livro “O Universo, Os Deuses, Os Homens”, cita: “Enquanto uma tradição oral de lendas estiver viva, enquanto permanecer em contato com os modos de pensar e os costumes de um grupo, ela modificará: o relato ficará parcialmente aberto à inovação”. (p.13).

Queremos o docente-contador de histórias. Mergulhando na memória, na oralidade e na tradição para a sobrevivência do encantamento dele e do outro. Será uma pessoa aberta, modificador de pensamentos e inovador de sonhos.

Professor comece contando a sua história. Pois, as histórias ensinam.

Vivia sonhando – acordada, é claro!
Ouvia: “Está sonhando com os anjos, menina?”.
Ao bater asas e voar, o narrador consegue sensibilizar seus ouvintes com uma bela história.


- Baú de Histórias ( 2 ) -

O Contador de Histórias


Os narradores ou “contadores de histórias” eram personagens comuns às diversas culturas, que vinham de longe com suas histórias de vida, histórias de outros povos, da tradição do próprio local onde viviam e por onde passavam. Para ser um contador de histórias, toda uma gama de subsídios é necessário. Gestos, ações, comportamentos, tons de voz, expressões faciais, diferentes formas de olhar, pausas, movimentos de suavidade e explosão. Mas é necessário contar a sua própria história, como era a infância, que histórias ouviam, do que gostavam de brincar, preservando a memória e ensinando valores.



O contador de histórias envolvido com a leitura, principalmente com a literatura infantil que é um mundo rico de fantasias e encantamento vai proporcionar ao seu ouvinte um envolvimento emocional e juntos descobrirão valores e crenças. O narrador dá movimento à sua vida e a do outro, lubrificando as engrenagens para a descoberta das fantasias e das portas dos sonhos, que conduzem ao aprendizado.



A voz, o tom, o ritmo, o olhar e os gestos dão um colorido diferente ao narrador que narra uma história olhando nos olhos de seus alunos. Nada impede de usar recursos criativos como lenços, véus, panos coloridos, chapéus, fitas, objetos de sucata e outros. A narrativa ficará mais forte envolvendo o público como uma boa leitura nos envolve. 


A música embala a história, o corpo se expressa dançando e falando e vamos descobrindo os desejos e prazeres que a leitura e a literatura nos proporcionam. 

O contador de histórias precisa desenvolver a autoestima, atuar de forma independente, com segurança e confiança nas percepções e limitações, aprender a brincar com as emoções, avançar no processo de construção de significado, enriquecendo cada vez mais a capacidade de expressão. 

Aprendemos a ver as coisas por inteiro, criamos vínculos afetivos com os nossos alunos e profissionais que nos rodeiam, desenvolvemos as possibilidades de comunicação e interação social, nos tornamos o agente transformador. 

Quando eu era menina, adorava deitar no chão e olhar para o céu azul, azul, azul. No céu azul tinha nuvens, e as nuvens tinham formas. 
E eu pintava o céu com a minha imaginação.


- Baú de Histórias ( 1 ) -

A Arte da Narrativa Oral
                                                                                   

Alguém disse: “O seu trabalho é tão bonito. Por que você não ensina?”. Ensinar...ensinar...ensinar... 



Um dia, uma parede foi quebrada e uma porta foi aberta. Algumas mulheres vieram aprender a arte de contar histórias. Eram mães, avós, professoras, assistentes sociais, fisioterapeutas, cada uma na busca de um novo momento para vida. O sonho estava sendo realizado, iria semear contadores de histórias. Foram vinte e quatro mulheres que chegaram ao final de um curso.



Trabalhamos a espontaneidade e a criatividade, quebrando as “conservas culturais” de cada uma delas. Refere-se aos modos estereotipados do agir e pensar em nosso meio social e cultural, tolhendo o corpo e as emoções. 

As histórias eram contadas e cada uma descobria o seu papel, de narradora ou fada, de bruxa ou princesa com caras, caretas, gestos, risos e redescoberta da espontaneidade corporal e principalmente da facial. Com isso não aprenderam apenas contar histórias, mas desenvolveram uma capacidade de dar respostas originais aos percalços e impedimentos da vida. 

Para despertar o contador de histórias, é necessária a autotransformação, fazer um acerto de contas com aquilo que precisa deixar de ser e mudar. A ousadia, a coragem de ser espontâneo é essencial na formação do contador de histórias. 

O corpo que foi preparado e brincado através de exercícios espontâneos em frente a um espelho, em duplas, quando uma era o espelho a outra era personagem. 

Dançamos com lenços, véus, panos coloridos, usando músicas de todos os lugares. Era um momento ímpar para cada uma, mas também um espaço para trabalharmos o grupo, a união, o dividir e o somar. 

A narrativa oral sempre foi um dos principais instrumentos para a preservação da memória da humanidade. Em volta das fogueiras, ao pé do fogão à lenha, histórias eram contadas e, assim, perpetuadas e transmitidas de geração para geração.


“Foi assim que uma tarde eu ouvi baterem á minha porta. Era uma professora que trazia um sorriso nos olhos e, nas mãos, um balaio cor-de-rosa feito de rolinhos de jornal”. (Piza,p.15/2013).