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quinta-feira, 24 de março de 2016

A CATADORA DE HISTÒRIAS

Vermelho e Preto
No afã do processo da crise política que estamos vivenciando. Resolvi enviar para alguns grupos do whatsapp um recado para colocarmos roupa preta. E uma pessoa, de um grupo, respondeu com toda convicção: “vou sair de vermelho”. Quando li está frase, vem à lembrança os quatro moradores de rua.
Um dia desses quando fazia a minha caminhada e resolvi dar uma parada pra ver, ouvir e sentir o mar; a mulher chegou. Olhei para ela com olhos de espanto. Ela percebeu o meu medo e disse: - Mulher não vou fazer nada, não vou pedir nada, não quero nada. Quero que você ouça a minha história.
Foi neste instante que vi o rosto envelhecido, rugas do sinal do tempo sofrido. O vestido vermelho coberto de lantejoulas enormes. E na cabeça um pano dourado coberto de lantejoulas douradas. E ela começou:
- Eu tinha apenas doze anos quando saí de casa para viver nas ruas. Fui morar em um prostíbulo e lá com apenas quatorze anos eu era a rainha da dona da casa. Fui amada, judiada, violentada e um dia fugi. Encontrei o velho homem, ele cuidou de mim. Mas o álcool foi corroendo tudo por fora e por dentro. Perdemos tudo. Um dia encontramos o moço e passamos a vagar pelas ruas os três. Agora chegou este menino. Vivo com os três. Às vezes o menino me procura, mas quer colo e chora em meu peito. O velho sabe que está no fim. A doença chegou e ele espera pela morte. O moço ainda tem forças para amar uma mulher. Vivemos os quatro aqui. Comemos o resto que as pessoas jogam. E assim o tempo passa. Precisava falar com outra mulher. Já não tenho o corpo de antes. Meu corpo era belo. Era desejado. Foi amado. Olha o estado do meu corpo hoje! Estou feia, estou velha, estou perdida.
Naquele momento lembrei-me do livro da Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com lobos; o capítulo sete, o título é “o corpo jubiloso: a carne selvagem” (1994, p.250).

Olhei para aquela mulher e disse: - você não está feia, você não está velha, você não está perdida. Você é a mãe do menino, a companheira do velho e a amante mulher do homem.
 

quarta-feira, 23 de março de 2016

CATADORA DE HISTÒRIAS

Catadora de Histórias
Sou uma contadora de histórias, vivo por este mundo descobrindo histórias. Na terça-feira (15\03), recebi um whatsapp pedindo para eu ler um texto. Qual não foi a minha surpresa, era do jornal A Gazeta de Piracicaba. Mais especificamente na página do bem-estar. E o texto era sobre a felicidade do Plinio Montagner.  
Todas as terças-feiras têm reunião na casa desta contadora de histórias. É o momento de leitura das histórias dos livros e as histórias da vida. Mas neste dia lemos e discutimos “o que é felicidade para você?”.
E cada um que ali estava foi narrando o que era felicidade, preparar uma comida simples e deliciosa, estar reunido com amigos, ou estar dentro do metrô e ver o povo de verde amarelo em busca de um país mais humano.
Mas esse texto me incomodou. Fiquei a pensar: ser feliz é um desejo de todos talvez; estar feliz é o momento vivido - de um grande amor, do nascimento do filho, e tantos outros momentos que podemos considerar o estar feliz.
E ter felicidade o que é? É o encontro do ser e do estar feliz? É viver um momento um instante só ou acompanhado? São questões que me fazem pensar neste momento de crise que vivemos. O povo está triste, inseguro, impotente nesta turbulência política. Como diz Leonardo Boff em seu livro Crise Oportunidade de Crescimento (2002), mudamos ou morremos.
Quero e desejo acompanhar este período de uma forma suave, eu confio neste povo corajoso, que vai às ruas de verde e amarelo, que canta o hino nacional. Povo forte! Sim. Fortificado pela desesperança em homens públicos.
Bom, volto ao texto do Plínio que diz: “Felicidade é algo muito sério, por isso não está à venda em nenhum lugar”. Nós nos tornamos consumistas, competidores e excluímos coisas e seres.  

Desejo caminhar em busca de momentos vividos nos encontros de cooperação e comunidade da pessoa humana. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

A CATADORA DE HISTÓRIAS

A CATADORA DE HISTÓRIAS

Pra Iemanjá

Vim aqui hoje
Oiá nos teu zóio
Dize procê que já não sei mais rezá
Mais to aqui pá agradece
Minha gratidão é do tamanho de ocê
Fico pequena aqui na areia
Oiando pro alto nos teu zóio
Sua roupa azul     
Da cor do céu do dia que aqui cheguei
As concha na tuas mão
Fico a oiá e tenho a esperança que uma caia
Na minha mão
Que to a implora      
Vem o pássaro e fica bem junto de ocê         
Na sua cabeça ele senta, acomoda e fica
Mas vim aqui só pá agradece
Tudo deu certo
Um ficou a oiá o meu cachorro
Outro fez tudo que podia
Pra até minha bicicreta traze
Eu só tenho é que agradece
Todo dia eu vou e óio nos teus zóio
É a gratidão

É lágrima que escorre nos meus zóio procê