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quinta-feira, 19 de março de 2015

Monografia: O OLHAR E O CUIDAR ARTETERAPÊUTICO NA ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS Uma abordagem com adolescentes em medida de acolhimento

O OLHAR E O CUIDAR ARTETERAPÊUTICO NA ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS

Uma abordagem com adolescentes em medida de acolhimento

RESUMO


Este trabalho tem como objetivo apresentar uma proposta de pesquisa no atendimento às adolescentes acolhidas. Vamos trabalhar a autoestima dentro de um olhar arteterapêutico e a arte de contar histórias com a sensibilização corporal e os cinco sentidos. Usando a música e as brincadeiras com os tecidos e o corpo. E o cuidar arteterapêutico na busca da identidade não construída, através das quatro dimensões humanas.
Vamos trabalhar o fazer artístico com materiais simples e recicláveis. Para despertar a autonomia dessas adolescentes buscaremos as funções do ser humano e os quatro elementos a partir da leitura do I Ching.
A pesquisa aconteceu em uma casa de acolhimento de crianças, adolescentes e jovens na cidade de Piracicaba, SP. Esta experiência contou com a colaboração e a dedicação das Curandeiras de Almas, com suas histórias de encantamento.

Palavras-chave: Arteterapia. Contação de histórias. Adolescentes acolhidas.


 INTRODUÇÃO


A tempestade traz alívio de tensão e todos os seres respiram aliviados.
                                                                              (WILHELM, 1997, p.37)


Articular o I Ching com a monografia era uma vontade desde o início do curso de Arteterapia. Mas precisava perguntar ao oráculo se isso seria possível.
Aconteceu o ritual, a mesa preparada com a toalha branca, a vela acesa, o incenso, a limpeza das moedas. No silêncio de uma tarde de domingo, a pergunta foi a seguinte: I Ching devo apresentá-lo na monografia do curso de Arteterapia?
A ansiedade era grande em respeito ao livro das mutações. Primeiro a pergunta em voz alta e em seguida a pergunta era mentalizada e as moedas eram jogadas três vezes formando o trigrama inferior e mais três vezes para formar o trigrama superior.
Importante citar que, no trigrama inferior, o resultado foi: uma linha inteira e duas abertas, Chên, o incitar, trovão. Seu movimento tende para o alto e a sua imagem é o trovão. No trigrama superior, uma linha aberta, uma inteira e a outra aberta K’an, o abismal, água. O perigoso, seu movimento tende para baixo, sua imagem é a chuva. Era o hexagrama de número três - Dificuldade Inicial. (I CHING, WILHELM, 1997, p.37).
Inicialmente, a preocupação e a incerteza de articular o oráculo com a monografia era latente. Na leitura do julgamento do livro das mutações, Wilhelm (1997, p.37) alertava: “Tempos de crescimento implicam em dificuldades”. O projeto estava hibernado. Como trabalhar as contadoras de histórias da Cia da tia Carmelina? O que fazer com essas Curandeiras de Almas? Continuando a leitura do I Ching, (WILHELM, 1997, p.37), as imagens começaram a clarear: “[...] com perseverança, há perspectivas de grande sucesso, apesar do perigo”. Qual seria o caminho? Terminar a leitura das linhas do oráculo e esperar? Isso foi feito. Veio o sonho na noite de domingo para segunda-feira:

Esta Curandeira estava internada em uma UTI e curava a todos, mas ela estava cada vez mais doente. Então, pediu ao médico que a retirasse da UTI. Em um quarto a acomodaram. Melhorou com a presença das pessoas que a visitavam. Apenas o homem grande, todo vestido de negro não conseguia entrar. Diziam que ele era perigoso, um lutador violento. Espalharia a discórdia e o caos.

Jung, na introdução do I Ching (WILHELM, 1997, p.16), adiciona a experiên-cia dizendo:

[...] Se deixarmos a natureza agir, veremos um quadro muito diferente: o acaso vai interferir total ou parcialmente em todo o processo, tanto assim que, em circunstâncias naturais, uma sequência de fatos que esteja em absoluta concordância com leis específicas constitui quase uma exceção.

Particularmente, a dúvida continuava em relação ao projeto que ainda estava em uma UTI. O caos e o medo rondavam como o homem do sonho. A porta não abria. Mas o oráculo (1997, p.37) dizia: “Devem-se convocar ajudantes, para com eles, superar o caos”. Imprevistos acontecem ou é o destino? Eu havia deixado a natureza agir. A sabedoria de Bernardo (2010, p.118/119), nos alerta para o seguinte: “[...] segurando em nossas mãos os fios do nosso destino, criando com eles o desenho que nos revela como coautores desse destino”. Eu segurava o fio do meu destino, quando uma Curandeira de Almas apareceu para uma conversa séria. Seria ela a ajudante que o I Ching mencionou? O acaso? Trazia a seguinte questão: “você ainda está pensando em fazer o trabalho de Arteterapia com as contadoras de histórias da santa casa?”. Sim. “Somos Curandeiras de Almas, disse ela, vamos levar as histórias como alimento e cura para as adolescentes da Casa Raquel”.
Portanto, Angwin (2012, p.151), fala que: “Ao rumar corajosamente em direção a esses novos horizontes, podemos contar com o encontro de uma auxiliar, [...] Esse auxiliar é um deus que pertence ao nosso panteão interior”. A Curandeira apareceu na tarde de segunda-feira. À noite já estávamos na Casa Raquel conversando com as adolescentes, com a psicóloga, a assistente social e uma educadora.
Nesse momento, a porta abriu. Não podia perder de vista a meta de articular o oráculo, a Arteterapia, a arte de contar histórias com as Curandeiras de Almas e as adolescentes acolhidas da Casa Raquel.
A Casa Raquel é uma das casas dentro da instituição - A Casa do Bom Menino - que é um lugar onde atende meninos e meninas de zero a dezoito anos. É um abrigo que tem um projeto político pedagógico com a preocupação de formar cidadãs e cidadãos. O abrigo tem o dever de resgatar esse ser humano em sua dignidade, em seus deveres com ele próprio e com os outros. Criando valores para que ele possa desenvolver um potencial criativo e uma percepção de pertencimento. Cyrulnik (2007, p.73) afetuosamente nos alerta que: “É preciso, pois pertencer. Não pertencer a ninguém é não se tornar ninguém”. Por isso, que a Casa Raquel prima pela dignidade e pelo respeito de um pertencimento, desde o momento em que a adolescente chega até o dia em que ela precisa sair, levando-se em consideração que, antes da adolescente ir para um abrigo, todos os esforços foram empreendidos para que permanecesse em seu próprio lar.
Sabemos também que o afastamento dos familiares traz problemas e imensas feridas, não só para a adolescente como para a família. O ideal seria que a adolescente ficasse no abrigo por pouco tempo, dias, meses. Mas isso não acontece. Ela fica anos e anos. Sabendo que, se não voltar para o convívio familiar até completar dezoito anos, terá que enfrentar a vida sozinha.
Logo, a adolescente precisa descobrir caminhos, meios; ela é uma pessoa humana que merece todo o nosso olhar de cuidado, para Boff (2003, p.89): “[...] Não temos cuidado. Somos cuidado. Isso significa que o cuidado possui uma dimensão ontológica que entra na constituição do ser humano. [...] sem cuidado deixamos de ser humanos”. Dessa forma, Boff explica (2003, p.197): “Ontológico: que tem a ver com a essência, com a identidade profunda, com a natureza de um ser, como, por exemplo, o cuidado essencial com referência ao ser humano”. Sabendo dessa realidade veio o desejo e o querer de levar um olhar e um cuidar artetepêutico e a arte de contar histórias às adolescentes da Casa Raquel, na cidade de Piracicaba, na companhia das Curandeiras de Almas.

 


METODOLOGIA


DIFICULDADE INICIAL traz sublime sucesso favorecendo através da perseverança.
                                                                              (WILHELM, 1997, p.37)

A proposta foi feita para a aplicação da Arteterapia e a contação de histórias na Casa Raquel, com onze meninas de doze a dezessete anos. Primeiramente, tivemos um encontro no dia 11 de fevereiro de 2013, com a assistente social e a psicóloga da casa; uma das contadoras de histórias, a Lia, que já tem um projeto de trabalho em jogos e matemática com as adolescentes da casa.
No dia 18 de fevereiro, foi a assembleia, é assim que os profissionais da casa chamam o momento para comunicar as adolescentes de um novo projeto. Estavam presentes: seis adolescentes, uma educadora, a assistente social, a psicóloga, a contadora de histórias, Lia e eu. Feita as apresentações uma explicação sobre arteterapia tivemos que elucidar para uma das adolescentes que argumentava a todo o momento: o que é isso: Arteterapia?
Nesse momento disse a elas, que seria interessante a participação, pois teríamos momentos diferentes, onde poderíamos trabalhar o corpo através da dança; ouvir histórias de encantar e histórias reais. E descobrir que fazer arte como o desenho, a colagem, a pintura e outras dinâmicas seria uma “degustação” das diferentes formas de arte. Seriam seis encontros, todas as quintas-feiras das 19h00 às 21h00. Senti o interesse em algumas e em outras pairou dúvida.
Mais uma reunião foi feita com as profissionais da casa no dia 25 de fevereiro para conversar sobre a reação das meninas depois da assembleia. Continuava um grupo entusiasmado e outro na expectativa. Uma sala foi acomodada para o trabalho e uma das exigências da instituição era o preenchimento de um documento como voluntária da casa no período em que iria acontecer a pesquisa. Tudo pronto para acontecer na quinta-feira dia 07 de março de 2013.
Depois das conversas com as profissionais da casa senti a necessidade de trabalhar a agressividade que era o que imperava de mais saliente nas meninas. Uma agressividade com palavras, com atitudes de desprezo por qualquer coisa a comida, as roupas. Unia a essa agressividade o desleixo com ela própria, com o quarto, que é o espaço sagrado delas na casa. O desrespeito com as outras pessoas da instituição, as companheiras e as educadoras. Mas isso também refletia fora da instituição, por exemplo, no ambiente escolar.
Inicialmente, o projeto foi dividido em três capítulos. Logo no primeiro capítulo, vamos ter um olhar arteterapêutico às adolescentes acolhidas trabalhando com as duas funções da consciência: sensação e sentimento; e os dois elementos: terra e água. Abrangendo os dois primeiros encontros. No primeiro encontro o significado do nome de cada uma delas e a criação de um crachá, valorando a autoestima para que descobrissem que são pessoas humanas merecedoras de respeito. Bernardo (2010, p.120) nos remete ao caminho do visionário e nos diz: “[...] trocamos as ilusões por uma perspectiva de busca de uma visão mais ampla de quem somos e do lugar que ocupamos nas diversas situações propostas pela vida, no Cosmos, no plano divino de criação”. Cada nome tem o seu significado e a sua própria história.
Assim, no segundo encontro, vamos pensar no autoconceito e alimentar a autoestima. Sensibilizá-las para a amorosidade, modificar situações e costumes e atribuir um novo significado na convivência com as pessoas do entorno. E a atividade arteterapêutica do segundo encontro foi decorar a moldura de um espelho. Para Bernardo (2008, p.43): “A confecção de moldura em um espelho é um recurso que pode ser utilizado para trabalhar sobre a autoimagem e o desenvolvimento do amor próprio”.
Particularmente, no segundo capítulo, vamos buscar a identidade não construída com as Curandeiras de Almas e a arte de contar histórias, trabalhando as duas funções da consciência: pensamento e intuição; e os dois elementos: ar e fogo. Trabalhamos as diferentes culturas, com histórias vindas de longe. No terceiro encontro a história de Sherazade e a importância de um lápis. Tivemos muita música. A atividade arteterapêutica foi a tatuagem na mão esquerda e o desenho com giz de cera e lápis de cor. Mas, especialmente no quarto encontro, foi o ápice do trabalho com duas situações importantíssimas, a negritude brasileira e a linguagem de sinais. Outro fator importante nesse dia foi a construção do trabalho arteterapêutico, o colar afro-brasileiro. Dessa forma, Bernardo (2011, p.60) ressalta: “Essa atividade é especialmente interessante para se trabalhar a autoestima e a autovalorização, o direcionamento do olhar para as possibilidades de extrair da vida a doçura e o encantamento [...].”
Finalmente, no terceiro capítulo tivemos um olhar antropológico e as quatro dimensões humanas: biológica, psicológica, social e espiritual. Trabalhando as quatro funções da consciência e os quatro elementos em seus opostos. No quinto encontro, continuamos com histórias da África. O trabalho arteterapêutico foi o desenho das mãos em uma cartolina, recortada e decorada. Fizemos a mandala das mãos. Assim, chegou o sexto encontro, pois já finalizávamos o projeto. Em um pedaço de papelão trabalhamos a infância, a adolescência e o futuro.
Como em cada encontro uma palavra era falada e questionada, a palavra estava presente na dinâmica corporal, na história e nas atividades em Arteterapia.
No primeiro encontro foi o cuidado e no segundo a ternura. Para o terceiro encontro foi on shanti e namastê. E, para o quarto encontro, a escolha da palavra foi logo após a história e a ideia surgiu a partir de uma delas: profundamente. No quinto a palavra: generosidade e no sexto encontro as palavras: carícia, conviver e doação.  
Doar é um ato de ação, elas presenciaram esse ato com a participação das contadoras de histórias. Cada encontro uma contadora doava o seu momento, a sua disposição de ficar todo o tempo participando das atividades e contando uma história, que foi preparada e pensada por horas e horas com todo carinho para aquele dia. Em todos os encontros, no final, um mimo era entregue a elas e líamos uma carta de baralhos.
No final de cada oficina elas tinham muita dificuldade para falar o que sentiam em todo o processo. Novamente recorria a uma palavra e, dessas palavras, um texto era construído, de início por mim, mas depois elas começaram a interferir na criação da escrita. Foi assim, que respeitando esta solidão interna de cada uma delas, cheguei ao sexto encontro com elas falando durante a atividade artística. O que tinham feito na escola, os namorados, as raivas e as alegrias, as tristezas e os medos.


Olhar para a arte como cura do medo e da solidão.

As palavras
Quando aqui cheguei. Olhei nos olhos de cada uma de vocês.
Olhos preocupados, olhos interrogativos, olhos sem olhar.
Falamos, dançamos, brincamos e ouvimos histórias.
Agora, olho nos olhos de vocês. O meu olhar encontra os olhos de M., com a harmonia e a paz; apesar dos pesares olho o aconchego nos olhos da L.
Com a A. que pensa e diz que não tem palavras, mas vejo no olhar o sorriso.
Olho e ouço afeto é a voz da Lu. E a descontração na alegria da G., na esperança da Le. 
E Am. quer esperar uma nova vida. E na alegria e felicidade da I, vejo o silêncio, enquanto M. que me agradece por tudo que está acontecendo.
                                                                Carmelina de Toledo Piza, 2013.