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terça-feira, 11 de abril de 2017

A Guardadora

 Todas as noites eu esperava. Primeiro passava o velho homem com seu cachorro velho e manco, tão velho era o cão que mal conseguia andar. Todas as noites eu esperava por eles. O velho passava por mim e dizia:
- Boa noite, menina, passou bem o dia!
- Sim. E o senhor?
- Também, quem não está bem é ele, o Gregório. Velho e cansado. Mas não fica em casa.
O velho agachava, carregava o cachorro e continuava sua caminhada.
Eu esperava por ela. Usava um rodado vestido de retalhos coloridos.
Retalhos cor do céu e da terra, da cor da alegria e da tristeza, do amor e dos sonhos.  Carregava uma sacola de palha, passava e dizia:
- Boa noite, menina, passou bem o dia?
- Sim. E a senhora?
-Muito bem.
Continuava o caminho. Eu olhava a lentidão e a calma de cada passo. Sabia que ela catava os sonhos que estavam livres, mas às vezes apareciam sonhos medrosos, perdidos, sensíveis e comoventes. Todos eram colocados comodamente na sacola de palha. Mesmo aqueles que voavam em busca de novos caminhos e os que passavam sorrateiramente pelas frestas das janelas e das portas.
Eu esperava o velho homem voltar com o Gregório no colo, e a mulher vinha logo em seguida, quase curvada com o peso da sacola.
Ele dizia:
- Até amanhã minha menina!
-Até amanhã senhor!
Ela passava dava uma parada para trocar a sacola de mão olhava em meus olhos e sussurrava:
- Até amanhã minha menina!
- Até amanhã senhora!
Lentamente os dois subiam a encosta da montanha, a lua era a companheira daquelas três criaturas. Os guardadores de sonhos e histórias.
Moravam em uma pequena casa lá no alto bem perto do céu, da lua, das estrelas e do calor do sol. Quando chegavam, colocavam o Gregório para dormir, retiravam cada sonho da sacola e os transformavam em belas histórias.
No dia seguinte, as histórias eram contadas por quem quisesse ouvir.
Ela começava suas histórias com uma fala que encantava e cativava cada pessoa presente. Podia ser uma criança, um jovem ou adulto, ou até os velhos que sempre esperavam pelos três: o velho, a mulher e o Gregório.
Assim eles tinham certeza que os sonhos e as histórias nunca iriam morrer.